11/04/2015

Sobre a adopção

Na sequência de um artigo que anda por aí a circular, que admito não ter lido na sua totalidade, que muito tem dado que falar, tenho de dar a minha opinião sobre este assunto. Até por ser um assunto que me diz muito respeito.

Sou uma entusiasta defensora dos direitos dos animais, mas, desculpem lá o mau jeito, adoptar uma criança não é o mesmo que ficar com o cãozinho abandonado lá da rua. Ah, mas eles também sofrem e têm sentimentos. Claro que sim! Tenho uma cadela traumatizada e carente devido aos maus tratos que sofreu em bebé. Sei bem o que isso é. Mas vamos lá ter calma, uma coisa é adorarmos os nossos animais, outra é humanizá-los em demasia e compará-los com uma criança. Adoro esta bicharada toda, mas o meu filho está acima na hierarquia.

É aceitável devolver um animal adoptado? Não, a não ser em situações extremas (uma doença grave e pouco mais). É aceitável devolver uma criança adoptada? Nunca.

Para quem não sabe, a partir do momento em que a adopção é decretada, a criança passa a ter os nomes dos pais e a ser oficialmente seu filho, tendo todos os direitos e deveres de um filho biológico e o mesmo se aplica aos pais.

Tomar a decisão de adoptar uma criança não deve ser tomada de ânimo leve. Não são para pôr um lacinho e levar a passear 3 vezes ao dia. Atenção, adoptar um animal também não deve ser uma decisão irreflectida. Eles dão trabalho e quando são bebés fazem todo o tipo de disparates. Não querem saber se estão a roer aqueles sapatos xpto ou se fazem um xixi no tapetinho pura lã virgem carissimo. Mas adiante. As crianças que estão para adopção não são crianças "normais". Só uma pequena parte teve a sorte de ser orfã, a maior parte delas viu e viveu coisas daquelas que vemos nos filmes e pensamos que são exagero, coisas que nem imaginamos poder ser verdade. Sei de algumas e são realmente chocantes. Se tivessem tido uma vida e uma família normais, não estariam para adopção. Além disso, muitas viveram parte da sua vida num instituição, onde, por melhores que sejam, não há o carinho e amor de um pai e de uma mãe. Se não estão dispostos a aceitar esse fardo, talvez não sejam os candidatos ideais.

Já vos aconteceu aceitarem alguma coisa (um emprego) com toda a certeza de que vão ser capazes de a fazer e depois perceberem que não têm o que é preciso para aquela tarefa? Por exemplo, a área comercial não me diz nada. Não gosto, não consigo. Posso aceitar um emprego nessa área, mas depois serei capaz de atingir objectivos e, mais importante ainda, ser feliz?

Quando se está a definir o perfil são feitas as seguintes questões: estamos dispostos a aceitar uma criança com um passado? Uma criança mais velha? Uma criança com problemas de saúde? Uma criança de outra raça?
E nós, e apenas nós, devemos decidir até que ponto temos capacidade e estamos abertos a cada uma destas situações. Vão dizer-nos que uma criança de dez anos vai chegar mais rápido do que uma de 1 ano, que uma criança doente também. Mas, estamos preparados para uma criança mais velha ou uma criança que exija cuidados de saúde diários continuados, uma criança que pode não chegar a adulta, só para recebermos uma criança mais cedo? Ninguém nos obriga a nada. Temos, acima de tudo, de ser sinceros connosco próprios.

Quando finalmente há uma compatilibilidade entre criança e pais, o processo é apresentado aos pais: idade, passado, problemas de saúde. Só aceita quem quer. Quem não quer volta para a lista e espera por um novo match. Claro que certas crianças têm menos probabilidades de ser adoptadas e as assistentes sociais tentam que essas crianças consigam uma família, mas da sua família cada um é que sabe.

Posto tudo isto, não acho que ninguém, após passar por estes procedimentos, tenha o direito de dizer "Não, não, espere lá. Não é nada disto que eu quero! Não me condiz com os cortinados da sala!"
A partir do momento em que são pais, são pais. Ponto Final. Com o bom e o mau. Só quem tem filhos sabe que não é tudo rosinha a toda a hora. Os filhos biológicos fazem asneiras, partem, estragam, fazem asneiras na escola, têm más notas, metem-nos a cabeça em água. E querem saber? Foram educados por nós desde o dia 1. E o que fazemos quando se portam mal? Até que idade é que têm garantia "Satisfeito ou Reembolsado"? Não têm, não é? Agora imaginem que tiveram uma vida de merda, que andaram de lar em lar e que agora vão morar com pessoas que nunca viram antes na vida? Acham que vai ser fácil? Que assim que entrarem pela porta vão estar à vontade, gritar mamã e papá e amar-vos do fundo do peito? Pensem lá outra vez!

Se forem adoptar com possibilidade de devolução quando houver dificuldades, não estão a adoptar um filho, estão a adoptar um filho de segunda categoria. Nenhuma criança que esteja para adopção merece ser um filho de segunda categoria. Na verdade, nenhuma criança merece. Se não estiverem prontos para ser pais a 100%, NÃO adoptem.

4 comentários:

  1. Um dia gostava de adotar uma criança, confesso!

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  2. Concordo em absoluto com tudo...é por esse motivo que já tivemos na mesa a hipótese de adoptar e nunca chegámos a avançar...por isso mesmo, porque não sabemos se estaremos á altura, e temos que estar, não há cá espaço para incertezas.Se houver incertezas mais vale estar quieto ...a ideia é sermos felizes e fazermos felizes os outros!

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    1. Framboesa, talvez não fosse ainda o momento certo. Mas fizeram bem em não precipitar-se se não estavam certos.

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