18/05/2014

A culpa não é sempre da mãe

Nunca li nenhum livro que tenha saltado da blogosfera para fora. Tenho esta aversão a livros que toda a gente recomenda. Enfim.

De qualquer modo este livro da "Cocó" acabou por me vir parar às mãos e como mãe não podia deixar de o ler. Não tinha qualquer expectativa em relação ao livro. Não gosto de partir para um livro com expectativas demasiado elevadas, prefiro ver onde ele me leva. Sabia que, pelo menos, a escrita faria algum sentido, porque como jornalista uma coisa que a autora faz bem é "brincar" com as palavras.

É uma escrita leve, mas que trata de assuntos sérios. É uma espécie de reportagem, mas em grande, que se lê ora com uma risada ora com um aperto no peito. Acima de tudo, o que provocou em mim foi ir ao baú das memórias e lembrar-me das minhas experiência em confronto com as experiências das mães do livro. Meu Deus, há mães naquele livro que a culpa deve arrastar para uma existência miserável! O que posso concluir dessa análise a mim mesma é que ou tenho uma patologia grave ou não me deixo afectar muito pela culpa.

Não sinto culpa por ter tido um parto induzido
Não sinto culpa por este ter culminado numa cesariana com anestesia geral
Não sinto culpa por não ter amamentado (ainda que o quisesse fazer)
Não sinto culpa por ele não gostar da escola
Não sinto culpa por ele ter caído nas escadas e ter aberto o queixo quando tinha 6 anos e precisar de pontos (eu própria caí várias vezes na mesma escada em pequena e em grande e nunca culpei a minha mãe. Sou uma grande trapalhona é o que sou!)
Não sinto culpa por ele ter chumbado um ano e por ter dito, quando fui chamada à escola por uma professora que me perguntou o que eu achava de ele ficar retido, que se ele não estava preparado devia chumbar (ah, mas disseram-me que me ia arrepender e que devia ter implorado para ele passar. Nunca me arrependi e foi o melhor para ele sem qualquer dúvida)
Não sinto culpa por dizer não quando é o que ele precisa de ouvir
Não sinto culpa por todos os anos tirar uns dias de férias só para mim (temos 360 dias para compensar isso)
Não sinto culpa por ele não andar num colégio fino, nem por não ter um telemóvel XPTO ou roupas caríssimas  
...

A culpa pode partir de nós, mas pode partir muito do zum zum (das mães, das sogras, das amigas, do companheiro, da sociedade) que nos chega aos ouvidos e temos de aprender a ser imunes a todos esses disparates com que nos querem assoberbar. Ser mãe não é fácil, ninguém disse que era. As coisas não correm, a maior parte das vezes, como idealizámos antes deles nascerem. Há coisas que correm bem, outras menos bem e há coisas que simplesmente não podemos controlar, não podemos evitar, mas temos de aprender a viver com isso e em vez de darmos ouvidos a 50000 disparates, seguir o nosso instinto e fazer o que achamos correcto. O que é correcto para uma mãe pode não ser o correcto para outra? Pode, mas nós estamos a criar os nossos filhos, não estamos a criar os filhos da vizinha.

Só espero que as mães que vivem atoladas em culpa por tudo e por nada aprendam alguma coisa com este livro e que percebam que se precisarem de ajuda para ultrapassar certas questões não há mal em pedir ajuda a alguém imparcial e especializado.

Um grande clap clap para a Sónia. Gostei muito de a ler!



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